Publicado em: seg, jun , 2017

Seis horas após ação da PM, usuários reocupam a nova cracolândia de SP


Usuários de drogas que foram expulsos da praça Princesa Isabel durante ação policial da manhã deste domingo (11) foram liberados pela PM para retornar ao mesmo local, no centro de São Paulo, cerca de seis horas depois. Eles estavam no local da antiga cracolândia, a cerca de 400 metros dali, e puderam reocupar a praça somente após passarem por revista policial.

Eles foram proibidos de levar lonas, estacas e nada que permita montar novas barracas. Carrinhos também foram proibidos. Entre os objetos apreendidos, estavam um taco de golfe e uma prancha de surfe. Policiais militares gritavam que era hora de voltar para a praça Princesa Isabel e que eles não poderiam permanecer no meio da rua. “Eles não usam a barraca como refúgio, mas como esconderijo para consumir e traficar drogas”, diz o tenente-coronel da PM Miguel Daffara, que comandou a operação. Para ele, o controle para que novas barracas não sejam montadas na praça não será fácil. “Será uma batalha diária.”

Líderes de igrejas evangélicas, assistentes sociais e agentes de saúde intermediaram as negociações a respeito de como seria feito o retorno para a praça. O principal pedido dos usuários é que não fossem feitas revistas pessoais, apenas nos pertences, o que foi atendido pela PM.

Assistentes sociais disseram que a operação foi necessária para fazer a limpeza da praça, já que os usuários se recusavam a deixar o local para a retirada do lixo que se acumulou no local. Havia risco sanitário e lixo tóxico, como borracha e fios de cobre. A preocupação era também com os móveis que começaram a ser levados, como estrados de madeira e partes de cômodas. “Foi combinado que a limpeza será diária a partir de agora”, diz a coordenadora do programa Recomeço, Gleuda Apolinário.

Para o integrante do Conseg (Conselho Comunitário de Segurança) de Santa Cecília, Fabio Fortes, é a favor da ação policial. “Continua inaceitável o permanente comércio e consumo de drogas na região”, diz. Ele afirma que foram retirados mais de vinte caminhões de lixo do local. “Estava quase em processo de serem erguidas moradias ali, era uma condição de acampamento.”

A ação da Polícia Militar desta manhã prendeu dois suspeitos de tráfico e retirou todos os barracos que ocupavam a praça havia três semanas. O local ficou conhecido como a nova cracolândia da cidade, com a presença de quase mil pessoas. A compra e a venda de drogas ocorriam livremente no espaço.

Por volta das 6h, policiais, com o apoio de integrantes da GCM (Guarda Civil Metropolitana), isolaram os quarteirões em torno da praça e iniciaram a operação. Dependentes químicos colocaram fogo em barracas e colchões ao perceberem a chegada dos PMs. Não houve confronto, e os usuários se espalharam para outros pontos da região central da capital. Alguns dos viciados reclamavam com os guardas-civis por não poderem acessar as barracas para recuperar itens pessoais. “Perdi celular, relógio, documentos. Estava tudo dentro da barraca”, diz Isaias dos Santos, 61.

Reocupação da praça

Esta foi a a segunda ação em menos de um mês para dispersar a cracolândia. No último dia 21, uma ação policial prendeu traficantes e desobstruiu vias nas quais funcionavam uma feira de drogas a céu aberto sob o comando de uma facção criminosa. A ação naquele domingo (21) foi arquitetada pela Polícia Civil e executada em parceria com a Polícia Militar. Apenas poucos secretários municipais da gestão de João Doria (PSDB) foram avisados daquela operação, sendo que os responsáveis pela área da saúde e assistência social só ficaram sabendo um dia antes.

Naquele dia, o novo programa anticrack de Doria não estava pronto. Uma das promessas era o cadastramento prévio dos usuários, para que recebessem encaminhamentos corretos, como tratamento médico. Sem isso, em meio a ações atabalhoadas e discursos oficiais dissonantes, o que se viu nos dias seguintes foram viciados espalhados pelas ruas e a formação de uma grande concentração deles na praça Princesa Isabel, a 400 metros do perímetro da cracolândia original.

Nas últimas três semanas, nenhuma ação conseguiu reduzir o tamanho da nova cracolândia. A gestão Doria, nesse intervalo, buscou autorização judicial para recolher à força os usuários das ruas, para atendimento médico, mas esse pedido foi rejeitado pelo Tribunal de Justiça do Estado. Enquanto isso, agentes de saúde e da área social de prefeitura e Estado seguiram no trabalho de abordagem individual de cada um dos usuários para convencê-los a buscar tratamento médico. Esse trabalho, porém, fica sempre mais complicado diante da oferta abundante de drogas, como ocorria na Princesa Isabel.

Agora, o governo Geraldo Alckmin (PSDB) e a gestão Doria dizem que a estratégia será diferente. Segundo eles, após a ação deste domingo, não será mais permitida a montagem de barracas por usuários de drogas, isso na própria praça Princesa Isabel como em outros pontos da região central da cidade. A promessa também é não permitir o retorno dos usuários para o antigo ponto de concentração e alvo da ação de 21 de maio. “Esse é um trabalho permanente. Isso não vai resolver do dia para a noite”, disse Alckmin.

De acordo com o secretário de Segurança Pública, Mágino Alves Barbosa Filho, a ação deste domingo teve como objetivo a busca de armas e drogas e, principalmente, desmontar toda a estrutura de barracas de lona que se ergueu na praça nas últimas semanas e vinha sendo usada para venda e uso de crack. “A GCM está orientada a retirar novas barracas que forem montadas no entorno”, disse o secretário.

Foram apreendidos cerca de dois quilos de crack, R$ 1.600 reais em dinheiro e três celulares. Dois suspeito de tráfico foram presos. A prefeitura deslocou 24 caminhões e 162 pessoas para a varrição e limpeza na praça.

Folha de S. Paulo