Publicado em: seg, maio , 2017

Confronte entre PM e manifestantes em Goiás termina em tragédia


Agredido por um capitão da Polícia Militar durante um protesto em Goiânia, o estudante de ciências sociais Mateus Ferreira da Silva, de 33 anos, já havia se formado em ciências da computação e trabalhava desde os 14 anos, segundo contou a família ao G1. Os parentes esperam que o jovem, que está internado em estado grave, se recupere logo que “volte a realizar os sonhos” dele.

“Ele é um menino determinado, muito focado, nosso orgulho. Sempre foi bom aluno. Ele ganhava bem como analista de Tecnologia da Informação em uma empresa, mas abriu mão de tudo quando passou na prova para ciências sociais, se reestruturou financeiramente e se mudou para Goiânia”, disse a gerente administrativa Heloísa Ferreira da Silva, de 28 anos, irmã de Mateus.

De acordo com a família, Mateus se mudou de São Paulo para a capital goiana no início de 2016. No começo, trabalhava de dia e estudava à noite na Universidade Federal de Goiás (UFG). Depois, ao passar no exame para ser monitor de ciências políticas, ele passou a se dedicar exclusivamente ao estudo.

Ao saber que Mateus havia se machucado durante a manifestação da última sexta-feira (28), a família ficou arrasada. Ao todo, são oito irmãos. Assim que conseguiram passagens, os pais e o irmão Natanael vieram de São Paulo, e Heloisa, do Rio de Janeiro, para acompanhá-lo.

Estado grave


Os parentes estão focados na recuperação do estudante, que está internado na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital de Urgências de Goiânia (Hugo). Ele sofreu traumatismo cranioencefálico (TCE) e múltiplas fraturas.

“A gente nunca espera que vá acontecer algo assim com quem a gente ama. A nossa prioridade agora é a recuperação dele. Ele passou por uma cirurgia de reconstrução facial e foi um sucesso. Mas agora ele apresenta um quadro de pneumonia e insuficiência renal. Os médicos estão fazendo as intervenções necessárias”, disse Heloísa.

De acordo com o último boletim médico divulgado pelo hospital, no início desta tarde, Mateus está sedado, intubado e iniciou procedimento de hemodiálise.

Pai de Mateus, o técnico mecânico Salatiel Ferreira da Silva Filho, de 53 anos, revela que sentiu um pouco de alívio ao visitar o filho no hospital, mas está apreensivo. “Não dá de dormir direito. É o meu filho, mas estou feliz de estar por perto”, ressaltou.

Apoio

Salatiel e Heloísa destacam que o apoio da família e dos amigos de Mateus tem sido fundamental para lidar com o momento delicado que passam.

“Ele era muito querido por todos. É um momento muito doloroso e todas as manifestações de afeto nos ajudam, tanto de quem o conhecia ou não. Estamos emocionados com o jeito que os amigos o resgataram e cuidaram dele”, agradeceu Heloísa.

Amigos de Mateus promovem uma campanha para arrecadar doações para os familiares dele durante o período em Goiânia. A ação está sendo divulgada em redes sociais.

“Eles vão precisar de dinheiro para alimentação, hospedagem, para se manterem em Goiânia durante todo esse período de recuperação, que não sabemos quanto tempo vai levar”, disse a amiga de Mateus, Mariana Falone.

Agressão

Mateus foi agredido durante um protesto organizado por centrais sindicais na Praça do Bandeirante, no centro de Goiânia. Na ocasião, mascarados entraram em confronto com policiais militares, momento em que o estudante foi atingido e ficou caído no chão. O capitão saiu correndo. Já o rapaz recebeu os primeiros socorros de outros manifestantes.

Uma sequência de imagens mostra o momento exato em que ele é atingido no rosto por um cassetete, que estragou. A situação também foi registrada em vídeo.

Amigos do Mateus, que preferiram não se identificar, disseram à TV Anhanguera que ele estava sem máscaras e não participou de nenhum ato de vandalismo durante o protesto. Porém, antes da agressão, é possível ver que o estudante estava sem camisa perto dos policiais. Momentos depois, ele aparece com um capuz e parte do rosto encoberto, junto a um grupo de manifestantes mascarados.

A mãe de Mateus, a cabeleireira Suzethe Alves, de 49 anos, repreendeu a conduta do policial. “Ele [Mateus] não é bandido e, mesmo que fosse, a polícia não tem o direito de bater em ninguém, é um ser humano, gente, é um ser humano”, disse em entrevista à TV Anhanguera.

PM afastado

A Polícia Militar de Goiás afastou das ruas o capitão Augusto Sampaio, subcomandante da 37ª Companhia Independente da Polícia Militar, pela agressão ao estudante. “Ele foi afastado em decorrência do Inquérito Policial Militar instaurado em virtude da agressão que teria sido praticada por ele contra o Mateus”, disse ao G1, o comandante geral da Polícia Militar de Goiás, coronel Divino Alves de Oliveira.

O comandante ponderou que ele foi afastado das atividades operacionais, porém segue trabalhando administrativamente. “Ele pode auxiliar em qualquer sessão”, explicou o coronel.

Logo após a agressão, na última sexta-feira (28), o comandante da PM informou, em nota, que determinou abertura de inquérito pela Corregedoria da Polícia Militar “diante das imagens que circulam em redes sociais, quando da intervenção policial militar, que mostram a clara agressão sofrida” pelo estudante.

Ainda de acordo com a nota divulgada pela PM na ocasião, a investigação tem o “objetivo de individualizar condutas e apurar responsabilidades”. O coronel explicou que o inquérito tem um prazo de 30 dias para ser concluído.

Em nota, o comando da PM já havia destacado que “condena veementemente todo e qualquer tipo agressão praticada por policias militares no exercício de sua função, não compactuando com atos que possam afrontar os princípios da ética, moral e legalidade”.

Durante o ato, quatro policiais militares foram feridos e foram encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML) para serem submetidos a exames de corpo de delito.

Repúdio


O reitor da Universidade Federal de Goiás (UFG), Orlando Amaral, esteve no hospital no sábado (29) em busca de informações sobre o estado de saúde do estudante. Horas antes, a UFG, onde Mateus cursa o 3º período de ciências sociais, já tinha divulgado uma nota repudiando a agressão.

No hospital, o reitor voltou a criticar a postura da PM. “Ele estava lá junto com dezenas, centenas, milhares de outros estudantes, professores, a comunidade, a população em geral, e não se justifica uma atitude como essa, uma violência tão desproporcional, em uma situação que obviamente demandava uma postura diferente da polícia, que é o que nós esperamos”, disse o reitor.

A Secretaria de Segurança Pública e Administração Penitenciária (SSPAP) informou que condena as agressões sofridas por Mateus e que atos como este “ferem a ética da corporação e das demais forças que compõem a Segurança Pública, cuja missão é proteger vidas e jamais atentar contra qualquer cidadão”.

O comunicado destaca ainda que a “exigência de imobilização de eventuais manifestantes nunca justificará a transgressão de limites”. Por fim, pontua que, se confirmado autoria, a SSPAP será “rigorosa na punição administrativa e no encaminhamento para a esfera judiciária”.

Do G1